Lei Seca
#21

(17-04-2019 às 12:03)el_Bosco Escreveu:  Começar a falar de politica é meio caminho andado para andarmos à porra e à massa. Prefiro que seja por causa das motas. angel

Boas;
Não deixas de ter razão.
Já no meu 1º post neste tópico demonstrei receio disso mesmo...
Contudo, este é um dos temas que mais nos está a afectar de forma directa.
Pela parte que me toca, pouco ou nenhuma influência terá no que tinha previsto fazer neste futuro próximo, mas já passei por uma situação similar em que ia ficando retido.
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#22

(17-04-2019 às 11:58)dfelix Escreveu:  
(17-04-2019 às 10:56)dmanteigas Escreveu:  O que quis dizer é que neste país, só quem tem poder reinvidicativo é que protesta e regra geral até são esses que por comparação têm as melhores condições
(...)
Relativamente à justiça ou injustiça dos vencimentos, quando se avalia esta problemática há que ter sempre em questão vários fatores: qualificação necessária, especialização, responsabilidade atribuida e claro, a velha questão da "oferta e da procura".

Não faço ideia das condições destes profissionais em específico.
Mas ainda recentemente ocorreu uma situação que é precisamente oposta ao que descreveste.
Refiro-me à greve cirúrgica dos enfermeiros.

Uma greve que apesar de praticada por uma área específica, foi em nome de toda a classe profissional.
E porquê? Porque grande parte das áreas de acção pura e simplesmente não há esse poder reivindicativo devido ao código deontológico.
Têm direito à greve? Têm. Mas têm de fornecer serviços mínimos. E quando no presente já se funciona perto desses mínimos (relativamente ao sugerido pela OCDE) pouca diferença se sente quando há greve.

Daí que nas cirurgias devido à existência de agendamentos e uma noção de prioridades seja mais fácil de gerir do que que será por exemplo numa urgência.

E lá está... não vejo melhor exemplo em que qualificação necessária, especialização e responsabilidade atribuída não faz justiça aos vencimentos.
E a injustiça agravou-se quando outras classes sem o mesmo nível de qualificação e responsabilidade (como administrativos ou técnicos de radiologia, análises, etc) tiveram seus direitos repostos e auferir em vários casos superiores.

Poderíamos aqui divagar sobre a oferta ou procura.
Mas realidade é que os vencimentos são tabelados pelo que a ideia de se andar a papar entrevistas pedindo mais para ver se cola (como eu faço na minha actividade profissional) está fora de questão.

Se existem algumas semelhanças entre estas duas greves... não sei te responder.
Mas o poder reivindicativo não é igual para todos.

Os vencimentos são tabelados... no público. Mas o estado não é o único empregador. Há hospitais privados, há clinicas, há lares... O facto de o estado empregar 70 ou 80% ou o que for deste profissionais é algo que sabiam à partida quando escolheram a profissão. E trabalhar para o estado tem outras vantagens para além do ordenado, como o emprego fixo e para a vida, o salário sempre certinho ao dia 20 e tal do mês independentemente de o estado estar falido ou não, dar lucro ou não... como também tem outras desvantagens, que é o facto de um bom enfermeiro usufruir a mesma compensação que um mau enfermeiro, um enfermeiro em Viseu ganhar o mesmo que um enfermeiro em Lisboa... não há meritocracia nem um ajustamento regional como existem nas profissões cujos ordenados flutuam livremente. E isto seria aplicável a quase toda a FP... Mas isto já são outros quinhentos que não vale a pena discutir aqui.

Relativamente ao poder reinvidicativo, o dos enfermeiros continua a ser superior ao meu ou ao da generalidade dos portugueses porque pelo menos há um grupo especifico que podem reinvidicar em representação da classe. Algo que não acontece com um operário da construção civil, com uma empregada da limpeza, com um empregado de escritório, com as caixas do continente... e para todos os efeitos, olhando para a tabela salarial dos enfermeiros e por muito injusta que possa parecer com a dos seus comparadores diretos (técnicos superiores de saude, etc), continuam a ser bastante melhor que outros profissionais como por exemplo os engenheiros ou os arquitetos recem-licenciados entre muitos outros casos. É que eu não acabei o curso assim há tanto tempo e são bem raros os exemplos dos meus colegas que começaram a trabalhar a ganhar mais de 1000€ brutos por mês por exemplo, sendo a moda sem duvida os 700 da praxe. Não quero dizer que é este que esta correto e que devemos "nivelar por baixo". Mas é preciso ter noção da realidade do País quando se faz algumas queixas. Sejam camionistas, estivadores, funcionários do metro, funcionários da CP, enfermeiros, médicos....

Ditadura dos Flocos de Neve
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#23

(17-04-2019 às 11:57)Johnny_1056 Escreveu:  Dmanteigas, se motorista de pesados de transporte de matérias perigosas é uma profissão tão aliciante e com tão poucas exigências, porque é que não há hordas de gente interessada??
Pegando nos dois exemplos de profissões que expuseste: camionista e enfermeiro; tudo depende das condições em que estás, pelos vistos agora estás a precisar mais de gasolina do que de cuidados de enfermagem...

Porque provavelmente os que existem são mais que suficientes para cobrir as necessidades que existem. Se houvesse falta deste tipo de profissionais, os ordenados subiriam por força da lei da oferta e da procura. Como não me parece ser o caso já que nenhuma das partes se queixa de falta de profissionais, creio que haver falta de gente interessada é uma não questão. O mercado funciona bastante bem, quando tentam subvertê-lo é que fodem tudo.

Ditadura dos Flocos de Neve
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#24

Atestei no domingo, vou amanhã a Chaves, e ao vir atesto em Espanha.

Com sorte não vou ver filas até isto acabar...

Honda CX 400 '83 Eurosport
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#25

(17-04-2019 às 12:25)dmanteigas Escreveu:  E trabalhar para o estado tem outras vantagens para além do ordenado, como o emprego fixo e para a vida,...

Isso considerando que os direitos são iguais para tudos.
Mas há uma diferença entre os que iniciaram a carreira antes dos cortes e congelamentos de carreira.

(17-04-2019 às 12:25)dmanteigas Escreveu:  ...olhando para a tabela salarial dos enfermeiros e por muito injusta que possa parecer com a dos seus comparadores diretos (técnicos superiores de saude, etc), continuam a ser bastante melhor que outros profissionais como por exemplo os engenheiros ou os arquitetos recem-licenciados entre muitos outros casos.

Não sei quanto ganha um arquitecto recem-licenciado.
Já a designação "engenheiro" é demasiado abstracta pois envolve muitas engenharias distintas onde se praticam também valores muito distintos.

Mas a enfermagem está longe de ser bem paga se considerarmos que os vencimentos estão 200-300 euros abaixo do que a generalidade dos profissionais na função pública com licenciatura.
E nem sequer estou a considerar a parte da responsabilidade que envolve.
Tal como estou a ignorar a especialização, que no presente pouco mais serve para facilitar o acesso a determinada especialidade caso exista obviamente vaga, mas sem que se traduza em retorno monetário.

E muito menos quero descer ao nível das situações em que os hospitais por necessidade de recursos e falta de verba contratam enfermeiros como maqueiros para desempenhar tarefas de enfermagem a um custo de um ordenado mínimo.

Por estas e outras razões muita gente que conheço tem abandonado esta área.
Lidar diariamente com desgraças, turnos marados em que ao final do mês as folgas não batem certo com o que deveria ser o números de dias de fim-de-semana, aturar gente selvagem nas salas de espera e lidar com a responsabilidade é algo pesado e que leva a um desgaste que leva a pensar que é mais saudável ir para uma loja dobrar roupa ou trabalhar na caixa dum supermercado.
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#26

Aqui o stress é mesmo a chuva, porque à necessidade de combustível vou a Espanha, é mais barato.
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#27

(17-04-2019 às 13:43)Fz1000 Escreveu:  Aqui o stress é mesmo a chuva, porque à necessidade de combustível vou a Espanha, é mais barato.

Eu como tive de pintar umas cenas na mota bem pode chover lol
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#28

Não vou entrar em discussões pseudo-político-sociais, sobre que classes profissionais valem o quê, que direitos têm (ou não) face a outrém e tudo o mais que sejam relativismos bacocos e considerações desfasadas da realidade de cada qual.

O facto é que independentemente de quem ou não tem razão e se as reivindicações que apresentam são mais ou menos fundamentadas (nem sequer entro por ai), temos o país em completa histeria, também empolado por todo o sensacionalismo que tem sido veiculado pelos media.

Enquanto tiver combustível nos 3 veículos lá de casa (que dará para mais 2 dias, sensivelmente), vou fazendo as minhas deslocações necessárias e normais. Quando já não tiver.... Encosto. Ponto.
Não entro neste histerismo e alarmismo. Recuso andar à procura de abastecimento de posto em posto, com tempos e filas de espera megalómanas e sem garantias que consiga efectivamente abastecer.

Aliás, foi esse histerismo colectivo criado pelos media que despoletou esta corrida desenfreada e louca aos abastecimentos, com muita gente mesmo sem precisar, a atestar os seus veículos... acredito que se as coisas se mantivessem minimamente normais e com a afluência regular, possivelmente não chegaríamos a este ponto de ter postos já totalmente encerrados.
Mas já sabemos também como funciona a mentalidade "tuga". confused

[Imagem: QKmafvp.png]
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#29

dfelix Escreveu:Mas a enfermagem está longe de ser bem paga se considerarmos que os vencimentos estão 200-300 euros abaixo do que a generalidade dos profissionais na função pública com licenciatura.
E nem sequer estou a considerar a parte da responsabilidade que envolve.

Não sei que profissionais são esses licenciados que ganham mais 200-300€ em entrada de carreira na função publica. Os técnicos superiores? 1200€, o que creio que seja o mesmo. Os TDT devem andar pelos mesmos valores também. Os médicos auferem valores superiores pelos motivos óbvios, assim como os farmaceuticos. Não creio que exista um desfasamento assim tão grande que implique afirmar taxativamente que são mal pagos comparados com os equivalentes. A verdade é que se deixassem o mercado funcionar livremente e com a oferta absurda que existe de enfermeiros que são formados às pazadas de universidades privadas e publicas, provavelmente seria bem pior como acontece no caso dos engenheiros civis ou dos advogados. O meu pai trabalha com engenheiros civis da minha idade e até mais velhos que ganham menos que os funcionários dele smile

Mas não deixar fugir o meu ponto relativamente aos salários da função publica no geral que é a completamente ausência de meritocracia e de correção das assimetrias regionais! Porque este para mim é o verdadeiro problema - nem se devia discutir tabelas de todo. Porque 1200€ no centro de saude de Miranda do Douro não são equivalentes a 1200€ nas urgencias do Hospital de Santa Maria (e idem para qualquer outro profissional da FP), seja pelo trabalho/pressão seja pelo custo de vida de cada região.

A maior parte de vocês são de uma geração diferente. A minha geração é a geração que começou a trabalhar com os estágios profissionais de perto de 700€, sem subsidios de ferias e de natal e sem direito a férias (o meu caso). O meu irmão esta a caminho de ser "recem licenciado" de engenharia mecânica e não vai começar a ganhar 1200€ brutos por mês, nem perto. Podia estar aqui a falar de vários amigos meus de todo o tipo de profissões, seja gestão, economia, engenharia várias que têm a mesma idade que eu, trabalham ao mesmo tempo que eu e não ganham sequer 1000€ brutos. Alguns em empresas de consultoria onde são completamente escravizados (vão para fora do país quando tem de ser, acham "normal" trabalhar 10h por dia, são sujeitos a uma pressão brutal para alcançar resultados...).

Portanto não me peçam para ficar particularmente sensibilizado com camionistas que são obrigados a pagar impostos, enfermeiros a ganhar 1200€/mês em inicio de carreira ou professores que ficam chateados por terem que ir trabalhar para uma escola a 150km de casa para a qual concorreram smile Há problemas bem mais graves e abusos bem maiores que como não têm direito de reinvidicação passam ao lado de toda a gente.

Ditadura dos Flocos de Neve
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#30

Quase tão mau como a histeria coletiva, é a indignação generalizada. Tentar conhecer os factos é regra geral muito mais interessante e útil do que tecer prematuramente juízos de valor.

A quem interessar, recomendo está leitura:

[Imagem: factfulness.jpg]
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