03-11-2017 às 08:19
Citar:O JN faz uma notícia que parece encomendada pela ANCIA (os senhores que querem por força cobrar-nos uma taxa inútil para uma declaração inútil de conformidade nos centros de inspecção), na qual afirma que as vítimas mortais e os feridos graves envolvidos em acidentes com ciclomotores e motociclos vem aumentando.
O tom é dramático e chega mesmo a dizer-se que “O número de mortos quase duplicou de 2016 para 2017”. Ora vejamos então os números, que pelos vistos os senhores do JN se esqueceram de verificar. Sim, é que os números que constam deste quadro publicado no jornal estão manipulados.
Diz-nos o quadro que em 2008 morreram 91 pessoas em acidente de motociclos e ciclomotores. Então fui ler o relatório da ANSR de 2008 e eis que afinal o que esse relatório no diz é que em 2008 morreram 62 pessoas em ciclomotores e 102 em motociclos, e diz também que em 2007 morreram 62 em ciclomotores e 142 em motociclos, o que perfaz os totais de ciclomotor+motociclo de 204 em 2007 e de 164 em 2008. Começa mal o JN.
Também 2009 não bate certo: os número da ANSR dizem que morreram 152 pessoas (50 em ciclomotores e 102 em motociclos) e o quadro remete para 94 mortos.
Algo não vai bem nas fontes do JN. Até fiz o exercício de verificar as mortes a 24H, para o caso de ser o dado que o JN estava a contabilizar. Mas nem assim. Veja-se 2010, o ano em que a lei das 125 produz efeito estatístico relevante com a venda de quase 14 mil motociclos abaixo de 125cc: nesse ano, segundo a ANSR morreram em motociclo e ciclomotor (a 24H) 177 pessoas, 65 em ciclomotores e 112 em motociclos.
Está explicado, nas letras pequenas, que os números se referem aos primeiros sete meses de cada ano. Pronto. E com essa explicação, explicam que não estão a mentir, apenas a manipular a forma como percepcionamos os números.
Mas mesmo que não fôssemos verificar os números da ANSR para detectar a fraude da ANCIA e do JN, reparemos no quadro publicado. O JN diz que os acidentes de moto matam cada vez mais mas o próprio quadro que publica mostra uma estabilização no número de acidentes mortais entre motociclos e ciclomotores. Apesar de a manipulação gráfica fazer parecer que o ano de 2017 é particularmente mau, se olharmos com atenção verificamos que o primeiro ano do quadro (2008) tem um número de mortes de 91 e que 2009 é o máximo com 94 mortos. Portanto, o ano de 2017 não é sequer o pior dos últimos dez anos.
Do quadro que o JN publica, para mim, só há uma conclusão a retirar: desde a entrada em vigor da lei das 125 há menos acidentes mortais com motos e ciclomotores. Depois de 2009, nunca mais se chegou àquele número de 94 mortes entre janeiro e julho. E isso é que é a única conclusão estatística legítima. E é uma conclusão particularmente importante porque mostra como as vozes alarmistas das escolas de condução (que chegaram a acusar-me de ter sangue nas mãos por ser o primeiro subscritor da lei das 125, com o Grupo Parlamentar do PCP) estavam erradas e mostra como a voz alarmista dos centros de inspecção está longe de ser verdade. A verdade demonstra que, apesar de o parque circulante ter aumentado em largos milhares, ou seja, apesar de haver muito mais gente a conduzir motos, o número de mortos tem vindo a diminuir consistentemente.
O resto é conversa. Quem não consegue vender inspecções periódicas por serem úteis, quer vendê-las como obrigatórias. Belo negócio.
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