Limites Sonoros e Restrições de Circulação a Motos na Europa
#1

Enquanto motociclista, vejo cada vez mais regras, deveres ou imposições a serem aplicadas, enquanto a liberdade se desvanece. Começa a existir medo de sair à rua de mota, sem chegar a casa com documentos apreendidos ou pelo menos uma multa por um motivo qualquer. E agora está a recuperar-se aquilo que em tempos foi uma realidade em alguns países, no que diz respeito à proibição de circulação de motas em determinados locais/horas porque são... motas.

Li recentemente um artigo onde se relatava uma viagem feita nos anos 80 ou 90, até um país europeu onde se tinha proibido a circulação de motas a partir das 22h. Nessa altura reuniu-se uma comitiva que se deslocou até aí para uma solidária manifestação e combate a este tipo de regras. Hoje já ninguém se manifesta nem combate este tipo de imposições e acredito que vamos ter de chegar a um limite muito além até que alguém se comece a importar.

Se a circulação de motas deve ser restrita por motivos de ruído na zona A ou B, então que se limite, pelo menos durante a noite e em zonas residenciais, a circulação de camiões de recolha do lixo, de autocarros, de comboios, a circulação de carros (nem só as motas têm sistemas de escape alterados - vivi uns anos próximo do bairro da encarnação em lisboa, e de quinta a domingo, se queria dormir, era melhor afastar-me da zona de concentração dos "street racers" da ponte VdG), etc.

Como é óbvio, este tipo de discurso e pretensão peca pelo ridículo, mas não é mais ridículo do que a mesma restrição aplicada aos veículos de duas rodas só porque sim. Nem sempre deve ser aplicada a regra de "pagar o justo pelo pecador", até porque muitas vezes essa regra não funciona.

Citar:[Imagem: motorradlaerm-schild-tirol-169fullwidth-...714472.jpg]

OS FABRICANTES DE MOTOS TÊM A SUA PRÓPRIA VISÃO SOBRE AS CRESCENTES CAMPANHAS NA EUROPA PARA LIMITAR O RÚIDO DAS MOTOS, OU MESMO BANIR A SUA PASSAGEM EM ZONAS HABITUAIS DE CONCENTRAÇÃO AO FIM-DE-SEMANA.


Os fabricantes de motos alertam para a necessidade de considerarem novas soluções para os próximos modelos a construir, face a uma onda de proibições, multas e restrições impostas a motociclos em toda a Europa Central e do Norte, tomados como incómodos e barulhentos nessas regiões.

Embora o tema do “incómodo” do ruído causado por certos motociclistas venha sendo há muito falado, o assunto está a tomar cada vez maiores proporções na Europa, à medida que os municípios travam uma guerra com a legislação e as proibições que vão sendo determinadas.

Com dispositivos de medição de ruído que já vêm sendo testados em alguns países, o Conselho Federal Alemão lançou em Maio a “Iniciativa Contra o Ruído de Motociclos”, pedindo proibições e sanções para todos aqueles que desrespeitam as regras.

[Imagem: motoc.jpeg]

Em Junho, o estado austríaco do Tirol impôs proibições a motociclos que emitiam 95dB de ruído estacionário – encapsulando uma série de modelos muitos vendidos – em rotas populares. O resultado demonstrou que muitos motociclistas cumpriram essas proibições de circulação, e logo no dia seguinte à proibição entrar em vigor, muitos moradores notaram uma redução do ruído – na medida em que se fala agora no alrgamento dessa proibição a mais zonas da Áustria.

Além disso, há crescentes pedidos de uma ação semelhante na Alemanha, Suíça, Itália e França, também como resultado dessa experiencia no Tirol.

O impacto dessas medidas será gigante se houver a ameaça de alargar essa medida a toda a Europa, com enormes consequências para a indústria de motociclos, visto que os fabricantes teriam de considerar a legislação ao desenvolver novos modelos, levando certamente ao desaparecimento de muitos motores e inclusive, modelos de motos.

A RESPOSTA PRUDENTE DOS FABRICANTES

[Imagem: block1-889.jpg]

Em resposta, a publicação alemã de motos Motorrad.de realizou um trabalho de campo impressionante, para abordar cada fabricante para dar a sua visão sobre as questões atuais e responder diretamente a um punhado de perguntas. Embora a maioria tenha respondido com declarações a negar esse compromisso de cumprir as normas à medida que são apresentadas, a BMW e a KTM entraram em mais detalhes.

Deram uma sugestão para que os fabricantes se unam para argumentar ao lado dos motociclistas, incluindo uma maneira mais formal de testar o som das motos, apelando ao mesmo tempo os motociclistas a não irem além do que é aceitável para não colocar a comunidade motociclista em risco de perder as suas liberdades.

SUGESTÕES DA ASSOCIAÇÃO DE FABRICANTES EUROPEUS (ACEM)

[Imagem: mann-des-jahres-2014-042.jpg]

Stefan Pierer, presidente da ACEM (Associação dos Construtores Europeus de Motociclos) Presidente e Chefe da KTM e Husqvarna, disse a propósito: “Como associação dos principais fabricantes globais de motos, a ACEM elaborou planos específicos para medidas sustentáveis e oportunas para combater o problema sonoro. A associação e os seus membros trabalham em estreita colaboração com os legisladores Europeus para resolver os problemas que podem surgir de exceder os limites de ruído permitidos”.

“Embora algumas das ações tomadas pela indústria de motociclos tenham impacto, os problemas imediatos de hoje também precisam ser resolvidos. As medidas tomadas apenas pelos fabricantes de motos não são suficientes”.

“O comportamento adequado também é exigido no campo dos fabricantes de escapes, bem como a nível nacional por parte de cada executivo e, em particular, por parte dos próprios motociclistas”.

[Imagem: bmw-motorrad-ceo-dr-markus-schramm-interview.jpg]

“O tema do “som e volume dos motociclos” é muito complexo para uma resposta simples”, acrescentou Markus Schramm, responsável da BMW Motorrad. “O fato de as motos serem percebidas como “barulhentas” em certas áreas, pode ser devido a sistemas de silenciamento manipulados ou não aprovados, ao estilo de condução não social ou simplesmente a um alto número de motociclistas nos passeios de fim-de-semana”.

“Justifica-se punir todos os motociclistas pela má conduta desses indivíduos? O debate é emocionalmente carregado; É claro que, como fabricantes, também levamos a nossa parte da responsabilidade a sério.”

“Não definimos o som das motos em volume, mas pelo caráter do som. Levamos muito a sério as reduções nas emissões de ruído discutidas pelo legislador.”

Fonte: Motosport
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#2

Já por cá o disse... Se todos (ou a maioria) respeitassem as regras já existentes e se as inspecções filtrassem muitas das situações piores (zundaps e famels com 40 anos) não chegávamos a isto. E estamos a chegar porque a cultura do escape "akrap sem db" é a dominante, como todos bem sabemos. E depois pagam todos por alguns (ou neste caso, por muitos). Causa e consequência.

(tou pronto para a inquisição)

[Imagem: 102319_WitchHuntArt.jpg]

[Imagem: muhz7is.jpg]
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#3

(17-09-2020 às 08:03)el_Bosco Escreveu:  E estamos a chegar porque a cultura do escape "akrap sem db" é a dominante, como todos bem sabemos.

Creio que já foi muito mais do que é agora, pelo que a "medida" chega fora de tempo e em contraciclo.

(17-09-2020 às 08:03)el_Bosco Escreveu:  E depois pagam todos por alguns (ou neste caso, por muitos). Causa e consequência.

Também há muitos carros "xuning" alterados (e outros nem por isso) que fazem poluição sonora ou pior. Os exemplos que descrevi.
Aplicando a mesma bitola, parece-me mais que justo impedir a circulação a todos os veículos automóveis.


Quanto à "inquisição", não te atiro para a fogueira porque estás (espero) a fazer apenas o papel do advogado do Diabo, e não propriamente por assinares por baixo neste tipo de medida. blink
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#4

(17-09-2020 às 08:37)marco.clara Escreveu:  Creio que já foi muito mais do que é agora, pelo que a "medida" chega fora de tempo e em contraciclo.

Calma que ainda não chegou nada... Afinal de contas, estamos no país que, contra todas as normativas europeias, continua a recusar instituir as inspecções... A contraciclo também não será, atendendo à crescente preocupação dos governos e populações com a poluição sonora, de longe a mais negligenciada mas com iguais consequências nefastas para a saúde. E cada vez há mais motas na estrada, e consequentemente mais ruido e alterações indevidas.

(17-09-2020 às 08:37)marco.clara Escreveu:  Também há muitos carros "xuning" alterados (e outros nem por isso) que fazem poluição sonora ou pior. Os exemplos que descrevi. Aplicando a mesma bitola, parece-me mais que justo impedir a circulação a todos os veículos automóveis.

Sabes perfeitamente que a % de motas que não respeitam estas normas não tem comparação com os carros. A minha percepção, certamente limitada, diz-me que em cada 10 motas que vejo, pelo menos metade tem escapes aftermarket que nao respeitam os níveis de ruido. Até scooters da treta já o fazem. Não obstante haver muito menos motas a circular que carros, as que existem são muito mais audíveis que os restantes. Quem não quer se lobo, não lhe veste a pele.

(17-09-2020 às 08:37)marco.clara Escreveu:  Quanto à "inquisição", não te atiro para a fogueira porque estás (espero) a fazer apenas o papel do advogado do Diabo, e não propriamente por assinares por baixo neste tipo de medida. blink

Imposição e verificação de limites sonoros em zonas residenciais, especialmente a partir de uma certa hora? Mas haverá alguém contra? Ou é só quando não o deixam dormir à noite? Aliás, este tipo de leis já existe, até cá. Eu só não acho que por gostar de ter um escape ruidoso e potencialmente mais poluidor, os outros tenham de levar com isso. A minha liberdade acaba onde começa a dos outros (já para não falar da lei...). Moro a 500m em linha recta (com prédios pelo meio) da A1 e todos os dias, a todas as horas, ouço destes exemplos.

[Imagem: muhz7is.jpg]
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#5

Muito pior que o barulho... são motas na marca da capoeira que insistem em rolar na estrada... isso é que é um drama...

Volto a dizer o que venho comentando ao longo de alguns anos... ainda me admira, como nos deixam andar de moto...
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#6

(17-09-2020 às 09:53)nelsonajm Escreveu:  Volto a dizer o que venho comentando ao longo de alguns anos... ainda me admira, como nos deixam andar de moto...

Pois é isso. Somos umas vítimas da sociedade. Uns santos. rolleyes

[Imagem: muhz7is.jpg]
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#7

Não são intenções novas. Quando comecei nisto das motas, nos primeiros anos da década de 90, já a recém fundada UE (que surgiu em seguimento da anterior CEE), veio cheia de medidas novas e altamente restritivas, a aplicar aos motociclos, sendo a mais célebre delas todas, o limite máximo de potência a 100cv. Tanto que houve uma enorme união de todos os motociclistas europeus em torno da defesa dos nossos direitos, com massivas manifestações de milhares, oriundos dos diferentes pontos do velho continente, que ficaram conhecidas como as Eurodemo. O facto é que surtiram efeito e acabaram muitas dessas medidas restritivas a cair por terra.

[Imagem: ZmpiyH8.jpg]

Mas nesta questão do ruído, não deixo porém de concordar em certo ponto com o Bosco. O pessoal agora queixa-se da actual "perseguição policial incessante" a alterações às características de origem das motos, incidindo estas em maior medida a escapes aftermarket barulhentos. Não acho que o problema seja tanto o escape não ser stock, mas sim o retirar dos dbkillers, com o intuito propositado de fazer ruído. Porque possivelmente, se não houvesse tanta gente a retirar os silenciadores dos escapes, sob alegados pretextos altamente discutíveis como o "loud pipes save lives", talvez a coisa não tivesse chegado a este ponto. Nada contra em meter um akra, por exemplo... agora, tirar-lhe o db-killer de forma propositada, já se está a pedir algo por acréscimo. E por arrasto vem então o resto, como depois os agentes de autoridade fazerem fiscalizações massivas e concertadas às motos, nos habituais locais de ajuntamento, e tudo o que sejam alterações de merda, por mais ínfimas ou ridículas que sejam, acabam a dar multa e a mandar as motos para inspecção B. Claro, como já se disse, estão também os justos, a pagar pelos pecadores.

Regra geral, as medidas repressivas vêm também em seguimento e como consequência das atitudes e posturas ilícitas que (alguns de nós) temos, e é isso que não deveremos esquecer. A velha máxima de que "a liberdade de cada um acaba quando interfere com a liberdade dos demais". Porque, tal como o Marco disse, também nos automóveis, existe pessoal a fazer alterações, e não é por isso que as autoridades acabam a pegar por questões de merda, multando de forma quase indiscriminada todo e qualquer condutor (como se está a assistir nas motos).

E depois são também as entidades oficiais (desde legisladores a fiscalizadores), que em lugar de criarem sistemas de controlo, triagem e sancionamento de quem realmente incumpre, toma todos pelo mesmo, criando medidas restritivas ridículas e abrangentes, como esta que dá mote a este tópico, entre outras. Porque uma moto não faz, em condições originais, assim tanto mais ruído que um automóvel (tanto que o índice decibélico está averbado no DUA. Comparando o DUA da minha mota com o do carro, o da moto indica mais 13db que o do carro).

É mais fácil e barato proibir, do que regular, implementar e controlar.
Não esqueçam que quem restringe e legisla sobre motos, por norma, nunca sentou o seu lustroso traseiro de calças de fazenda, em cima de uma.

[Imagem: zX4Kq81.png]

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#8

(17-09-2020 às 10:06)el_Bosco Escreveu:  
(17-09-2020 às 09:53)nelsonajm Escreveu:  Volto a dizer o que venho comentando ao longo de alguns anos... ainda me admira, como nos deixam andar de moto...

Pois é isso. Somos umas vítimas da sociedade. Uns santos. rolleyes

Aparentemente alguém é. Não serei eu. O que não invalida nada do que foi dito. V blink
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#9

(17-09-2020 às 10:33)marco.clara Escreveu:  Aparentemente alguém é. Não serei eu. O que não invalida nada do que foi dito. V blink

Eu também não sou, mesmo que neste departamento dos escapes e ruidos e afins até seja santo angel .

Mas não se pode discutir seriamente este assunto ignorando aquilo que é prática corrente na "classe", pensando na nossa "liberdade" e achando que é uma perseguição injusta e desprovida de sentido. Isto acontece porque as pessoas abusam. E abusam reiterada e ostensivamente. Depois quando se tenta limitar a situação vai tudo a eito.

[Imagem: muhz7is.jpg]
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#10

(17-09-2020 às 10:48)el_Bosco Escreveu:  Mas não se pode discutir seriamente este assunto ignorando aquilo que é prática corrente na "classe", pensando na nossa "liberdade" e achando que é uma perseguição injusta e desprovida de sentido. Isto acontece porque as pessoas abusam. E abusam reiterada e ostensivamente. Depois quando se tenta limitar a situação vai tudo a eito.

Independentemente de todos os argumentos que já foram apresentados, parece-me de facto uma perseguição injusta, pelos motivos que já referi. Porque se "paga o justo pelo pecador" (argumento que não se presta muito a análises percentuais), o mesmo critério teria de ser extensível a tantos outros casos, o que não se verifica.

Que culpa tem alguém que até possui uma mota toda "stock", do facto de existir quem não o faça, e que por isso se vê privado de circular numa determinada zona ou a determinadas horas? Não me parece razoável, e até me custa entender que haja motociclistas que assim o considerem. Mas cada um tem direito à sua opinião, e não me esqueço que estou apenas a expressar a minha, pelo que aceito que a tua seja diferente.

Bottom line é que não existe vontade de pensar noutras medidas que não envolvam tirar a liberdade ao motociclista comum, e que no final vão contribuir essencialmente para criar novos negócios em torno da atividade de fiscalização e inspeção, quer por parte das autoridades quer por parte das entidades privadas ou público-privadas que venham a fazer parte deste circuito. E se calhar nada disto tem tanto a ver com o aumento de motas com escapes aftermarket sem db killer, mas apenas com o aumento do número de motas na estrada e a potencial receita que daí pode advir...
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